segunda-feira, 13 de abril de 2026

O primeiro homem que amei

Demorou um pouco para eu ter coragem de dizer a outro homem que eu o amava. A masculinidade tóxica e hipócrita me impedia de fazer isso e só fui beijar o primeiro homem que amei após sair de casa e amadurecer um pouco. 


O primeiro homem que amei foi meu pai Cleber. Quando criança eu deitava constantemente nos seus braços, para vermos televisão juntos. Também ficava deitado com o ouvido na barriga dele, ouvindo um monte de barulhos. Quantos barulhos! Aí eu pegava o estetoscópio dele e ficava ouvindo seu coração por minutos a fio: era um coração calmo, sereno. Outras vezes ia cutucar seus pés, que descascavam muito (nunca soube o motivo), mas eu ficava ali, pacientemente, arrancando pelinha por pelinha. Às vezes ele soltava um “ai”. Aqueles dedos dos pés, os dois primeiros, tinham a força de um alicate, que fazia a gente gritar de dor. 


A palavra lhe faltava um pouco. Era um homem de fazer, trabalhar, operar pessoas, em silêncio, de preferência. Em seus dias ruins, soltava palavras duras, principalmente para minha mãe, e eu não aceitava e achava uma contradição: afinal, eu havia escutado aquele coração. O que teria enrijecido aquele peito?


Nesses dias de desequilíbrio, a que estamos sujeitos, o silêncio invadia o espaço familiar a ponto de criar uma nuvem na casa inteira, que parecia impedir qualquer outra conversa.

 

À medida que eu ia crescendo, ia observando aspectos sutis desse homem e de mim mesmo. Eu precisei da sua conversa na juventude, mas não encontrei. Não o culpo. A palavra lhe faltava, mas seu coração compensava.


Só depois que fui morar em outra cidade é que pude ir conhecendo-o mais e mais. E logo uma cegonha depositou uma filha (que filha!) no meu colo e sua reação ao vê-la pela primeira vez o fez desabar, de amor. Poucos anos depois disso, o primeiro homem que amei ficou doente e não demorou muito para fazer sua passagem. Porque, pai? Porquê? Às vezes choro, mesmo tendo passado tantos anos. 


Tive tempo e coragem, contudo, de beijá-lo e dizer que o amava, por muitas vezes.


As conversas que não tivemos em vida, dessas conversas que curam, as tivemos pelos sonhos. Por meio desses “encontros”  reestabelecemos o amor, o perdão e a cura plena da nossa relação, de pai e filho, de alma pra alma. Em muitas vezes lá estava ele, com seu jaleco branco. O vi sorrir, várias vezes, mais até do que na curta existência terrena, cuidando de mim, como cuidou de tantas pessoas que vieram lhe pedir ajuda. 


Te amo, meu pai Cléber João Martinelli, hoje e sempre!