domingo, 21 de março de 2021

Minhas sete vidas - a difícil arte de ser jovem e sobreviver (Vida 3)

Vida 3 - Pulo da pedra, número 01.


Quando se tem 16 anos e se estuda no turno da manhã as tardes podem ser bem tediosas. Pelo menos, em meados dos 90, ainda não tínhamos dispositivos chupa-cérebros. Vitória, Espírito Santo, oferecia pouco ao jovem selvagem, além das peladas de rua e as bandinhas de rock na Rua da Lama, sendo a praia um refúgio ao tédio juvenil. Não bastava mergulhar, surfar ou “pegar jacaré”. A química corpórea dos 16 exigia também adrenalina, talvez para compensar a frágil autopercepção de que a partir dali tínhamos o controle da vida. Diante disso, pular da pedra era uma excelente opção.   

Há um lugar famoso em uma das praias dali, ideal para o “pulo de pedra” (também tinha “pulo de ponte”). As Andorinhas são duas pedras altas e pontudas, a uns 100 metros da praia, um playground de pulos para quem queria testar seus poderes, disputar com os amigos ou eventualmente se mostrar para as poucas meninas que iam ali. Tinha opções de pulo pequeno (para os fracotes e medrosos), o médio ou o grande, esse último de uns 8 a 10 metros de altura, dependendo da maré. Não eram poucos os que subiam até o último ‘andar’ e desciam para os mais baixos.

Um dos parceiros costumeiros das idas às Andorinhas era o CP, amigo que mais se aproximou de ser um metaleiro de verdade (o resto tentou, mas as mães chegavam junto para tentar barrar a rebeldia: a minha jogava fora as blusas cortadas do Iron Maiden e do Metallica...quanta raiva!). Meu coturno da PM comprado no brechó só durou um final de semana…raiva!

CP não, chutou o balde. Lutava muito para domar e manter a cabeleira. Usava um coturno podrão, até nos dias mais quentes. Encheu o quarto de pôsteres das bandas, e tinha as blusas mais rasgadas. Só tinha uma vaidade: o desodorante spray verde Trés Marchand com cheiro de espuma de barbear (esse tema foi difícil pra ele à época, e apesar de metaleiro não esquecia da sua nécessaire nos intervalos do recreio ou aula de educação física, afinal sua subaca tinha um cheiro potente, embora ninguém desafiasse dizer).

Como éramos vizinhos, para as tardes tediosas dos dias de semana, éramos parceiros de aventuras, incluindo os pulos de pedra. Lá fomos nós, de bicicleta, voar com as Andorinhas. Bikes amarradas na praia, blusas e chaves enrolados e escondidos em algum buraco das pedras. Um nado de 100 metros até o playground natural de granito e já o primeiro desafio: escalar.

Como nós, outros garotos estavam ali para se divertir. Aliás, ali era um território neutro, longe da segregação provocada pelo nosso bairro de classe média, e onde encontrávamos também a galera da periferia. O jeito safo deles contrastava com o jeito meio inseguro dos ‘filhos de mamãe’: eles dominavam a arte de escalar e pular.

Feita a escalada, no meio do caminho você podia escolher se seria um medroso fracote (pulo pequeno ou médio) ou um fodão corajoso (pulo grande). Pulo grande, óbvio, afinal podia ser motivo de chacota ali, ou na escola, no dia seguinte.

Preparação para o pulo não deve haver. Como dizia um professor de física do ensino médio: “se pensar muito, você erra”. Era chegar e saltar.

Alguns pulos de pé, fáceis, e lá pelas tantas o desafio estava posto: saltar do ponto mais alto de ponta cabeça! Ali, diante daquela altura, eu não escutei o Professor. Pensei, pensei, medi, calculei. CP já estava lá embaixo, chamando pra ir embora e zoando minha insegurança. Outros moleques esperavam na fila. Eu tinha que pular, e de cabeça. Fui...

Tamanha altura se esgota em segundos. Pro meu azar não adotei a regra clássica de quem pula de ponta: proteger o impacto da cabeça com as mãos entrecruzadas para evitar o choque. Até medi bem o ângulo de entrada do corpo na água, mas entrei com tudo de cocuruto ‘desprotegido’ na lâmina d´água, que mais parecia um concreto.

E ali gastei mais uma vida. Ao subir à superfície vi que algo estranho tinha acontecido. Respirava, mas parecia que era “só isso”. Não conseguia mexer meu corpo como minha mente gostaria. Estava paralisado.

Pânico e vontade de sair nadando. O corpo não deixava. Aos poucos, senti a força voltar. O que deve ter durado 5 segundos pareceu-me 60. Talvez o coração tenha assumido a tarefa de restabelecer as conexões, pois ainda precisava viver e aprender muitas coisas. Talvez Iemanjá tenha refeito conexões sobrenaturais no aparato físico. O fato é que voltei a nadar. Nadei rápido como nunca antes. E gritei, pois os ‘fodas’ gritam depois do pulo alto.


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